sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifArtigos Sobre Haicai

O Haicai no Amazonas

Rosa Clement

A história do haicai no Amazonas tem sido pouco divulgada apesar de alguns poetas amazonenses praticarem essa forma desde os anos 80. Luiz Bacellar (1928) é considerado o pioneiro praticante do haicai no Amazonas. Segundo o poeta e dramaturgo Zemaria Pinto (1957), "tudo começou com o livro O Crisântemo de cem pétalas, de Luiz Bacellar e Roberto Evangelista, publicado em 1985". Em 1999, Bacellar publicou Satori, e em 2002, publicou a 2ª edição que inclui os poemas:

"Se o laço do obi
voasse ao ikebana.
Borboleta azul?"

"Formigas na porta
carregam o corpo
da cigarra morta."

"O mar está bravo.
Bate, e enfurecido,
canta nos rochedos."

Uma descoberta interessante sobre o haicai no Amazonas é devido ao escritor/historiador Samuel Benchimol (1923-2003). Em seu livro Zênite Ecológico e Nadir, de 2001, a lista de "trabalhos publicados pelo autor" inclui Versos dos Verdes Anos (1942-1945), descrito como "Poemas e haicais escritos no período de 1942-1945 (inédito)", contendo 9 páginas. Isto significa que Benchimol foi, em realidade, o primeiro a praticar a forma no Amazonas.

Em 1984, uma poeta do Amazonas, Mariazinha Trindade (?-?), demonstra ter ouvido falar do haicai, ao publicar um poema com mais de 17 sílabas na Antologia Poética da Mulher Amazonense com o título Hai-kai nº 3:

"Nesta sala me sinto
como um pássaro cativo
e anseio pela liberdade de uma árvore."

Mas foi Bacellar que despertou em outros poetas como Anibal Beça, o interesse pelo haicai. A idéia então enraízava e fazia com que os haicais florescessem e ramificassem no Amazonas, atraindo outros autores.

Em seu livro Filhos da Várzea, de 1984, Beça inclui duas séries de haicais a maneira de Guilherme de Almeida. O haicai guilhermino é um poema de três linhas com rimas na última sílaba da primeira e terceira linha e na segunda e sétima sílaba da segunda linha e geralmente inclui títulos e metáforas. Beça também informa, ter sido "fortemente influenciado nas idéias, por Millor Fernandes e Paulo Leminski". No entanto, atualmente o autor segue seu próprio estilo:

"Cercada de verde
ilha na hera do muro:
uma orquídea branca."

"Seis horas da tarde:
sons de cigarras
os sinos do templo."

Nos anos seguintes, outros livros de haicai foram lançados, entre eles, o do poeta Simão Pessoa, Matou Bashô e foi ao cinema, de 1992. Pessoa também segue o estilo guilhermino de uma forma humorística e descompromissada, como neste exemplo de seu livro:

"Cinema novo? Grande idéia:
uma câmera na mão
e mil moscas na platéia"

Em 1994, ZeMaria Pinto publicou Corpo Enigma, um livro que explora o haicai erótico, utilizando-se de imagens e metáforas:

para as pernas:

"asas da manhã
flutuando à luz difusa
na pele do vento"

para os seios:

"raízes plantadas
no vasto campo do corpo
- casulos de sonhos"

ZeMaria tem publicado haicai também na Internet e especialmente na antologia do site em francês http://www.atreide.net/rendezvous/bresil.htm:

"notícias do sol -
os pássaros da manhã
cantam na varanda"

"nouvelles du soleil -
les oiseaux du matin
chantent sur la véranda"

O livro O Poeta Amuado - Haicais e Sonetos, de Oliveira Neto, lançado em 1996, inclui tercetos cujo número de sílabas é variável. Como diz o próprio autor:

"Cinco, sete, cinco:
são assim os haicais sérios.
Com estes eu não brinco..."

A maioria dos poemas neste livro é escrita com base em assuntos políticos e sociais e pode fazer com que o leitor reflita sobre eles, como em este poema:

"Tem plano de saúde?
Pois guarde
para o ataúde..."

Em 1998, Jorge Tufic, publicou Sinos de Papel. Neste livro, Tufic também demonstra sua apreciação pelo modelo de haicai proposto por Guilherme de Almeida:

O Boto

"Quem se curva às águas
do rio, tem rosto sombrio
e leito de mágoas"

Em Sinos de Papel, Tufic apresenta somente dois haicais que não possuem rimas ou títulos e este é um deles, com uma interessante imagem e sensação:

"Telhados ocres
ao peso das ventanias
Farinha de barro"

Outros poetas como Ronaldo Bomfim e Roberto Evangelhista tinham planos de lançar seus livros de haicais em 2001, mas até a presente data (janeiro de 2005), não sabemos se esses livros foram publicados. O poeta Elson Farias, também escreveu seu modelo de haicai, sem publicá-lo.

Desde 1992, sou admiradora do haicai. Tenho publicado haicais em inglês nos periódicos americanos SeaOats, Lynx, Frog Pond, assim como rengas com os colegas haicaístas americanos Zane Parks e Jeanne Cassler, nas revistas Parnassus e Lynx, respectivamente. Publiquei na Internet, emThe Heron's Nest. Em 2002, publiquei Canoa Cheia, com poemas em Português e Inglês. Os dois poemas (agora reeditados) que seguem estão incluídos no livro:

"neblina do rio
uma canoa desliza
dentro do horizonte"

"manhã cinzenta
as silhuetas das garças
brilham na neblina"

Em seu livro, Orfeu no Labirinto (2002), a poeta amazonense Dedé Rodrigues publicou uma seção denominada "Oficina de Haicais". Essa secão está dividida em três partes: das flores (9 poemas); Das águas (4 poemas); Da carne (9 poemas):

Das flores

"fileira de flores
sobre as folhas esverdeadas
fetiches de cor"

Das águas

"aos saltos e gritos
tucuxi traz um aviso:
- este palco é meu"

Da carne

"um pássaro branco
sobre meus seios
êxtase sem fim"

Em 2000, a idéia de criar um grêmio de haicai foi finalmente posta em prática, quando um pequeno grupo composto por alguns dos poetas acima mencionados lançaram o Grêmio Sumaúma de Haicai. Assim, no dia 05 de julho de 2000, Beça proferiu uma palestra no evento Quarta Literária, realizado pela Livraria Valer, fazendo um resumo do haicai no Brasil, sua definição e objetivo. Na ocasião, tive a oportunidade de apresentar uma palestra sobre a presença da mulher no mundo do haicai desde os tempos de Bashô, encerrando a reunião. Foi então proposta a criação do grêmio com o objetivo de manter reuniões mensais para prática do haicai pelos membros que aderissem a nossa convocação.

Alguns meses depois, o Grêmio Sumaúma de Haicai foi formalmente estabelecido. Para seu encontro inaugural, no dia 21 de outubro de 2000, o grêmio convidou o haicaista Edson Kenji Iura, do Grêmio Ipê de São Paulo, que falou para uma platéia considerável sobre as origens do haicai no Brasil. Concordamos com a observação de Iura, que "no coração do Amazonas, onde a biodiversidade é imensa, quantos belos haicais poderiam ser produzidos." Sabemos e novamente concordamos com Iura que "o Amazonas tem o potencial para se transformar no verdadeiro País do Haicai". Esperamos que esta afirmativa seja somente uma questão de tempo...

Infelizmente, as reuniões do Grêmio Sumaúma de Haicai estão suspensas por enquanto. A razão é a falta de membros interessados em praticar uma forma poética que pertence ao outro lado do mundo e que parece muito misteriosa e difícil de escrever. Persuadir novos membros para vir às reuniões sempre foi um grande desafio. Nossas tentativas falharam principalmente porque nossas experiências não eram suficientes para resolver as dificuldades em ensinar sobre haicai a uma audiência que nunca havia escutado falar sobre a forma ou que já havia construído seus próprios conceitos. O objetivo das reuniões era principalmente apresentar e analisar haicais, com base nas experiências do grupo. Talvez logo em breve os poetas amazonenses do haicai decidam ressuscitar o Grêmio, desta vez, seguindo uma programação mais eficiente.

Bibliografia

Bacellar, Luiz. Satori. Manaus, AM: Ed. Valer, 2002. 148p.

Benchimol, Samuel. Zênite Ecológico e Nadir. Manaus, AM: Ed. Valer, 2a ed., 2001.223p.

Clement, Rosa. Canoa Cheia/Full Canoe. Lousville, USA: Helionaut Press, 2001. 35p.

Melo, Anísio. Kaleidoscopio. Manaus, AM: Ed. Valer, 2002. 54p.

Pinto, Zemaria. Corpoenigma - Haicais. Manaus, AM: Imprensa Universitária do Amazonas, 1994. 35p.

Rodrigues, Dedé. Orfeu no Labirinto. 2002. Manaus, AM: Ed. Valer, 2002. 104p.

Tufic, Jorge. Sinos de Papel - Haicais. Fortaleza, CE: Ed. Travessia, 1998. 53p.

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(Reeditado em 15/01/2005)