sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifArtigos Sobre Haicai

O Haicai Brasileiro Mostra Sua Cara

Rosa Clement

Após mais de uma década praticando o haicai é possível perceber suas tendências no cenário brasileiro. Pode-se dizer que nesse país tropical, o haicai já tem quase que adquirido uma identidade própria. A prática dessa forma de poesia no Brasil, que pode ter começado com Afrânio Peixoto (1875-1947), em 1928, ganhou rimas na fase guilhermina com Guilherme de Almeida (1890-1969), deliciosos traços concretos com Paulo Leminski (1944-1989) e um deleitável humor com Millor Fernandes (1923). No início do século XXI, o haicai sugere ter se estabilizado com a forma dada por seguidores do mestre japonês, residente em São Paulo, Masuda Goga. Atualmente, as comunidades que praticam a escrita do haicai, apesar de algumas dúvidas, parecem mais confortáveis com as regras que resultaram numa corrente entre moderna e tradicional.

Um típico haicai brasileiro contém exatas 17 sílabas divididas em três linhas de 5-7-5 sílabas, cada verso iniciado geralmente com letras capitais, descrição de uma cena da natureza, e uma preocupação com a inclusão do kigo (termo próprio de uma estação). Vale ressaltar que o uso de letras maíusculas é uma característica introduzida por brasileiros, talvez por influência de períodos literários passados. Uma outra estética também praticada, mas com menor intensidade, é o haicai com todas as letras em minúsculas e um discreto decréscimo no número de sílabas. No entanto, a idéia sobre o momento, ou seja, aquela percepção inspirada, nem sempre parece evidente em um haicai, o que produz uma dúvida do poema em questão “ser ou não ser” um haicai. Transmitir com clareza esse momento tem sido um espinho no pé descalço do haicaísta.

A incerteza se um determinado haicai inclui ou não esse momento faz com que muitos haicaístas prefiram chamar seu suposto haicai de terceto, haiquase, poemeto e assim por diante. Frequente também é a busca por comentários que incluem a pergunta se o que escreveram é ou não é haicai, na esperança de ouvir um sim como resposta. Isso pode sugerir humildade por parte do autor, mas também mostrar que ainda falta um maior envolvimento e compreensão da essência da forma, para poder dizer com segurança que o poema candidato a haicai é de fato um haicai.

O kigo também ocupa sua posição no haicai brasileiro. Escritores japoneses fazem uso do Saijiki, uma espécie de dicionário de termos próprios das estações, para incluir o kigo em seus haicais. No Brasil, o livro “Natureza: Berço de Haicai” (1996), de Masuda Goga e Teruko Oda, tenta oferecer uma lista de kigos para seus escritores, já que o uso de elementos sazonais é considerado importante. A complexidade do kigo, no entanto, ainda está sendo desvendada para pouco a pouco ser dominada. A maior dificuldade está na diversidade de termos únicos de cada região de um país continental como o nosso.

É muito fácil estabelecer regras para um haicai mas aplicá-las não é tão fácil. Sabemos que um haicai deve mostrar uma cena da natureza; deve convencer o leitor de que o autor realmente viveu a experiência; deve causar uma interação entre escritor e leitor; deve usar linguagem simples e natural, sem inversões mirabolantes ou cortes de palavras complementares; deve possuir beleza da cena; deve mostrar inovação. Mesmo assim, são vários os haicais publicados que não apresentam essas características dentro de seus versos. Entre esses, encontramos, por exemplo, haicais onde seu autor diz que está sob cobertores quentes enquanto os pobres sofrem na chuva, que, por ser clichê não traz nada de novo. É o mesmo que dizer que ele comeu batata quente e queimou a língua, ou que o bolo cheiroso reúne a família.

Assim é como o haicai brasileiro se apresenta. Entre excelência e simplismo, seus autores vão se especializando, gravando na história tendências cada vez mais afinadas, pois um bom haicai é aquele que fica na memória do leitor, que o faz imaginar a cena que ele já tem experimentado mas nunca havia visto sob aquele ponto de vista. É esse haicai que faz o leitor meditar, querer compreender porque esse poema é tão misterioso, difícil de escrever, de transmitir sua aura. Não é, portanto, fácil, apesar de ser tão pequenino. É por isso que muitos haicais passam por nós esquecidos ou ignorados. Talvez na próxima década essa realidade seja outra.