sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifArtigos Sobre Haicai

Os Excessos do Haicai

Rosa Clement

Uma das minhas atividades ao longo de vários anos tem sido ler centenas de haicais e de críticas (em inglês, principalmente), feitas tanto por membros de fóruns como por editores e revisores de jornais e revistas dedicadas a essa forma de poesia. Os motivos pelos quais os haicais eram criticados ou rejeitados para publicação eram basicamente os mesmos, entre eles a falta de originalidade, concisão, momento ou percepção, simplicidade. Foi assim que decidi classificar em categorias aqueles haicais (falo aqui para os escritores brasileiros) que podem até estar dentro das regras convencionais (quanto ao número de sílabas), mas que, de uma forma ou de outra, não atendem o esperado por cometerem certas falhas, como mostram as explicações abaixo e os exemplos para ilustrá-las:

1. Haicai Clichê

É aquele haicai que quase todo haijin já escreveu. Como sempre, tudo começou com Basho. A partir de seu duplamente brilhante haicai da lua no lago (pond), diversos autores exploraram a idéia ao esgotamento. Assim, muitos são os lagos, poças d´água e até chás nas xícaras que exibem a lua dentro. Se a idéia de juntar ambos, lua e lago ou poça, não for realmente atraente e inovadora, melhor evitar a repetição. Um exemplo desse tipo de haicai repetitivo segue o de Basho:

The autumn full moon
All night long
I paced round the lake (*) (Basho)

a lua cheia de outono
durante toda a noite
caminhei ao redor do lago(**)

poça d´água
a lua desaparece quando
um carro passa(***)

Outro haicai muito comum é aquele onde flores de alguma árvore cobrem o chão ou a calçada, e que ora pode ser visto como um tapete, ora como uma pintura:

jambeiro em flor
o chão do novo asilo
todo cor-de-rosa (***)

Mais comum ainda é o haicai que se inspira na avó, mãe, ou outro membro familiar para reviver lembranças do passado. Depois de Bashô, muitos outros poemas seguiram essa idéia:

the voice of the pheasant
how I longed
for my dead parents (*) (Basho)

a voz do faisão
como senti falta
dos meus pais mortos (**)

bolo de milho
quanta falta sinto agora
da minha avó (***)


2. Haicai Causa e Efeito

Há quem escreva haicai onde uma das partes apresenta uma causa e a outra parte uma ação ou efeito. Porém, um haicai não é simplesmente causa e efeito, mas sim, uma unidade mais significativa.

chuva forte
a rua se enche de cor
com as sombrinhas (***)

dia de frio--
o menino e seu pai
bem agasalhados(***)

Os supostos haicais acima, apenas apresentam uma situação óbvia, não deixam nada de novo para o leitor concluir. além de ser enfadonho de ler é pouco criativo e ingênuo. Porém, de acordo com Kathy Lippard Cobb no site Shadow Poetry, um haicai com causa e efeito pode ser válido, SE o par causa e efeito estiver contido apenas em uma das partes do haicai:

após a chuva
mil folhas no chão do shopping--
dia de descontos (***)

Já nesse haicai temos duas imagens parecidas em cada parte do haicai: a concentração ao mesmo tempo de grande quantidade de dois elementos ocasionada por eventos diferentes.


3. Haicai Imitação ou Derivado

É aquele que lembra imediatamente já ter sido escrito por outro autor, mesmo se apresentando sob nova roupagem. Inspirar-se em um haicai existente não é um fato novo, como vemos nos haicais do sapo de Basho e no das sombrinhas de Hokushi, a seguir. Uma vantagem de Basho é que todos os seus haicais são originais.

The old pond
A frog jumps in --
The sound of water (*)(Basho)

o velho lago
o sapo pula dentro --
o som da água (**)

In the dark forest
A berry drops:
The sound of water (*) (Shiki)

na floresta escura
cai uma frutinha:
o som da água (**)

Many umbrellas
Are passing by
This eve of snow (*)(Hokushi)

muitas sombrinhas
estão passando
neste dia antes da neve (**)

An umbrella - one alone --
Passes by
An evening of snow (*)(Yaha)

uma sombrinha - apenas uma --
passa
no começo da noite de neve (**)


4. Haicai "E Daí?"

É aquele haicai meramente descritivo, ou seja, que se ocupa somente em descrever uma imagem, muitas vezes do tipo causa e consequência, de efeito lógico e isso é tudo. Não apresenta um momento ou percepção, nada que o leitor possa perceber ou retirar para si, a não ser perguntar: "e daí?" Por esse motivo ganha o nome de terceto, poemeto, etc. Certamente nenhum dos mestres conhecidos escreveram esse tipo de haicai:

sorri o cabloco
a colheita de feijão
não cabe nos cestos (***)

o rei momo
dança alegre na avenida
é carnaval (***)


5. Haicai Charada

O haicai tipo 'charada' é aquele que pode confundir o leitor ao ser lido em uma sequência de dois versos. Se o autor não incluir uma pausa natural evidente ou um sinal de pausa em um dos versos, como um traço ou outro símbolo, pode permitir que tanto a primeira linha possa ser lida com a segunda, como a segunda possa ser lida com a terceira. Se as vezes a junção de qualquer dessas duas frases pode trazer um sentido interessante ao haicai, por outro lado, pode dar um sentido cômico não intencionado pelo autor. Portanto, se uma pausa adequada ou um traço ou outro símbolo não for utilizado, o autor precisa tomar cuidado para que sua intenção seja claramente percebida, evitando assim uma interpretação indesejada. Não é dificil encontrar esse tipo de haicai, inclusive, já publicados. Eis um exemplo:

um beija-flor paira
na flor de plástico
permaneço imóvel (***)

Ao ler a segunda e terceira linha do poema acima sem usar um pausa, estou dizendo também que ´permaneço imóvel sobre a flor de plástico, e sabemos que isto é impossível.

versão melhorada:

um beija-flor paira
na flor de plástico--
permaneço imóvel (***)

ou

permaneço imóvel
um beija-flor paira
na flor de plástico (***)


6. Haicai Verborrágico

É aquele haicai que se apóia em palavras na maioria das vezes desnecessárias, apenas para completar sílabas, como os adjetivos e palavras auxiliares tais como ´bem´, ´ah!', ´uma´, etc. Não adianta disfarçar, pois os excessos são logo percebidos pelo leitor experiente e a competência do poeta pode ser comprometida. Por ser um poema pequeno, cada palavra no haicai tem significado. Veja esses exemplos:

chega o pôr-do-sol--
os seixos ganham mais cor
ao cair da tarde (***)

o outono termina
um pássaro bem pequeno
some no horizonte (***)

Nos dois poemas acima, temos pelo menos uma palavra desnecessária em cada um: 'chega' pois sabemos que o pôr-do-sol sempre chega no tempo esperado, e 'bem' que não faz bem ao haicai. Portanto, podemos nos livrar dessas palavras para deixar o haicai mais conciso ou fazer uso de palavras mais significativas para deixá-lo mais substancial:

versões melhoradas:

pôr-do-sol
os seixos ganham mais cor
ao cair da tarde (***)

fim do outono
o filhote de pássaro
some no horizonte (***)


7. Haicai Truncado

É aquele haicai que -- para atender o número de sílabas estabelecido -- omite as palavras que dão ritmo ao poema.

chuva abundante
gatinho vai se esconder
debaixo de escombros(***)

versão melhorada:

chuva abundante
o gatinho faz silêncio
debaixo de escombros (***)


8. Haicai Hermético

Esse é o tipo de haicai que somente o autor entende, seja por falta de clareza, ou pelo uso de termos muito específicos, como os regionais. A mensagem se perde, já que uma parte do haicai não tem sentido para o leitor em geral. No exemplo dado, a palavra ´banzeiro´, por ser um termo próprio da região norte do Brasil, pode deixar o leitor confuso:

forte banzeiro
na rede armada no barco
o embalo pedido (***)

Uma maneira de corrigir isso é colocar uma nota explicativa sobre a palavra em questão:

* banzeiro - onda de rio causada por um barco que passa por outro e que chega a balançar o último.

Se seu haicai se encaixa em um desses tipos, revise-o. Há muito mais dessas falhas que devemos evitar ao escrever um haicai. Haicais enfeitados demais, isto é, que fazem uso de rimas, jogos de palavras, que implicam em julgamento (bonito, feio), metáforas excessivas, animismos, filosofia, ou que tencionam dar lições de moral, não representam o melhor esforço do escritor, mas sim fogem às regras básicas para um bom haicai ocidental. Por fim, escrever um haicai que seja original, evite essas falhas tão comuns e ainda desperte a admiração do leitor, não é uma tarefa fácil. A graça e arte do haicai está no desafio de escrever algo novo e criativo que emocione o leitor e o tire de seu estado de indiferença e isso tudo sem adulterar a forma. É certo que nem mesmo Basho conseguiu impressionar sempre com seus haicais, tanto que conhecemos de memória apenas alguns dos mil e pouco que ele escreveu. Um bom haicai é sempre marcante, sempre lembrado em algum momento, justo pelas habilidades de seu criador. Para conseguir esse feito, é preciso não desistir e continuar tentando.

______________________
(*) In: Haiku - Selected and Edited by Peter Washington. Published by Alfred A. Knopf. 2008.
(**) Tradução da autora
(***) Exemplos criados pela autora
http://www.shadowpoetry.com/resources/haiku/haiku.html. Article written by Kathy Lippard Cobb