sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifO Haicai e Suas Teorias

O Haicai e Suas Teorias

O Momento do Haicai
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Por que um poema com até 17 sílabas é chamado de haicai? O fato é que para se tornar um haicai, esse conjunto de palavras precisa produzir um efeito em seu leitor. Quando se diz que um haicai é bom, é porque esse efeito, que chamaremos aqui de momento do haicai, está presente e, portanto, pode-se dizer que o autor atingiu seu objetivo. Consequentemente, a presença ou falta desse momento pode indicar o grau de compreensão que o autor possui sobre o assunto. Esse discutido momento pode vir sob outros nomes tais como insight, flash, essência, “ponto”, como se refere o Prof. Paulo Franchetti, da UNICAMP, ou aha!, como prefere a estudiosa americana de haicai, Jane Reichhold. Enquanto que insight é um termo que em nossa língua significa discernimento, introspecção, compreensão, o flash, tal como o flash fotográfico, dá a idéia de que o autor captou um momento muito breve de inspiração ao observar uma cena. É uma outra maneira de dizer a mesma idéia. Quando o Prof. Franchetti diz que um certo haicai “não tem ponto”, ou Jane Reichhold diz aha! para um haicai, é porque eles estão se referindo à ausência e presença desse momento, respectivamente.

O momento do haicai não deve ser forçado ou fabricado, mas surgir espontaneamente, como explica Susumu Takiguchi em seu artigo A Haiku Moment of Truth (Um Momento de Verdade no Haiku). Tampouco deve ser a exposição de um fato lógico ou conclusivo, mas a habilidade com que o escritor elabora uma imagem de forma que permita ao leitor discenir, se imbuir de uma sensação nova que está implicita no haicai, ou seja, nas entrelinhas. Uma crítica que ouvimos com frequência é que um certo haicai é muito lógico. Isso significa que sua justaposição versus imagem se completam apenas para estabelecer um fato meramente conclusivo, esperado, conhecido, racional. Esse tipo de haicai não mostra nada de novo e não afeta de nenhum modo a introspecção do leitor. É apenas a descrição de uma cena cujo efeito já é previamente conhecido e por ser racional, nada deixa para o leitor refletir. Toda informação que armazenamos de nosso conhecimento de mundo é apenas racional e não precisa ser repetida em um haicai.

Há quem considere que é muito fácil escrever um haicai, enquanto outros entendem que não é tão fácil assim, e não é mesmo. Nem todos os haicais escritos pelos velhos ou modernos mestres são grandes haicais ou mostram um momento claramente, tanto que lemos alguns deles e não compreendemos por que tal poema é chamado de haicai. Devido a tantas incertezas sobre esse tão questionável momento, muitos escritores sentem-se inseguros ao exporem seus haicais, preferindo chamá-los de tercetos, poemetos, poeminhas, haiquases, arremedos, tentativas e assim por diante. Apesar da crescente literatura sobre a forma, vários são os autores com livros de haicai publicados que parecem demonstrar uma outra compreensão desse momento.

Como captar esse momento requer persistência. Muitas vezes, vemos uma cena maravilhosa para compor um haicai, mas falta o momento, a justaposição, e a idéia fica tamborilando em nossas mentes esperando para ser transformada em um haicai que pode ser concretizado ou nunca existir. Outras vezes, basta uma olhar mais demorado e o haicai desabrocha sem muito esforço.

O momento do haicai pode até ser diferente de leitor para leitor. O mais famoso haicai de Basho é um exemplo:

a velha poça–
um sapo pula dentro:
o som da água

Higginson (1985) explica que esse haicai de Basho ganhou fama principalmente por enfatizar o som da água, já que o usual era incluir o som dos sapos na poesia japonesa. Para Bruce Ross, no entanto, autor de “Haiku Moment” (Momento do Haicai, 2000), o momento desse haicai, que ele chama de “realização”, ocorre quando a água passa de quietitude para a produção de som causado pelo breve pulo do sapo. De acordo com o autor, toda essa sequência de acontecimentos pode despertar o espírito zen.

Outro exemplo que permite identificar o momento é esse belo haicai de Issa, mestre japonês do século XIX:

Que coisa estranha!
Estar vivo
sob flores de cerejeira.

Podemos perceber nesse haicai que o autor está quieto sob o pé da cerejeira, talvez deitado, sentindo as flores caírem sobre ele, tal como acontece com um morto que os vivos cobrem de flores. Ele passa essa sensação de desconforto e ao mesmo tempo de beleza para o leitor. Esse é o momento a que nos referimos desde o início dessa seção. Além da beleza do haicai como poema, há o inesperado, o súbito, e tudo descrito de forma simples, sem o auxílio de figuras de linguagem.