sa-ico-1.gifHomesa-ico-1.gifO Haicai e Suas Teorias

O Haicai e Suas Teorias

Origem
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O termo haicai é brasileiro. No dicionário Aurélio, além de haicai, constam os termos haicu, haikai e haiku e todos nos remetem ao haicai. Mas quem traduziu haiku como haicai e com base em que? Pode ser que a resposta a essa pergunta esteja em algum texto escondido, mas por enquanto tem permanecido sem explicação, pelo menos para mim. O interessante é que as demais formas, tais como a renga, a tanka, o senryu e o haibun, foram incorporados ao vocabulário do escritor de haicai por empréstimo direto de seu nome original. Suponho que foi o termo haikai que deu o nome ao nosso haicai, já que a pronúncia é a mesma, mudando apenas o k para o c, pois o k não pertence oficialmente ao alfabeto português. Mas por que não se chamou de haicu, como consta no dicionário Aurélio? Há ainda uma controvérsia sobre a pronúncia de haicai com o h mudo, mas após 15 anos de convivência com escritores brasileiros, a pronúncia do h como r é a única que tenho escutado. E já que haicai significa haiku...

Assim como a história da literatura brasileira, a história da literatura japonesa está dividida em vários períodos. No período inicial, Nara, que durou aproximadamente de 710 a 794 depois de Cristo (d.C.), os poetas japoneses, influenciados pela poesia chinesa, praticavam o uta, que significa canção, levemente adaptada do quarteto chinês para um poema de cinco partes, em japonês. O uta passou a ser chamado de waka, e finalmente, tanka (poesia curta e elegante), um poema composto por duas estrofes, sendo a primeira de 5-7-5 sílabas e a segunda de 7-7 sílabas, escrito por uma pessoa e praticada nos seis séculos seguintes. Quando a tanka passou a ser escrita por duas pessoas, ou seja, uma escrevia a primeira estrofe e outra a segunda, recebia o nome tan renga. Sobre a influência da tan renga, os poetas passaram a adicionar novas estrofes, criando assim um poema mais longo, que passou a ser chamado simplesmente de renga. É nesse período que surge o grande mestre Matsuo Basho (1644-1694), que na verdade não foi um mestre do haicai, mas sim, um mestre da renga.

A renga, que tinha um caráter humorístico, era a forma poética preferida por Basho, que a praticava com seus discípulos durante suas viagens. Basho chamou de hokku a estrofe de três linhas que iniciava a renga e de haikai as demais estrofes. Foi Basho que transformou o hokku, dando-lhe as características da natureza, de seriedade e eliminando o kireji, como um elemento mandatório (ver seção sobre Pontuação). O hokku passou a ter maior profundidade e a enfocar também o momento do haicai, ou seja, aquela sensação ou emoção de que falamos tanto e que um bom haicai deve possuir.

No final do século XIX, Basho já era considerado um mito, mas quem despontava na época era o quarto mestre mais importante do haicai, Masaoka Shiki, que, segundo Reichhold (2002), achava essa adulação à Basho repugnante. O hokku então, ganhou nova roupagem, quando Shiki passou a chamar o hokku de haiku, combinando hai de haikai e ku de hokku. Depois de algum tempo, o termo haiku se popularizou e se tornou uma forma independente da renga. Veremos em maior detalhe sobre tanka e renga, e os quatro mais importantes mestres do haiku, em outras seções desse trabalho.